José Silveira nasceu para ser médico.Apesar de ter vivido cercado por pessoas de formações completamente diferentes - seu pai, João Silveira, natural de Condeúba, era engenheiro agrônomo, a mãe de prendas domésticas e avós e tios, do comércio — desde a mais tenra idade ele já sabia sua vocação.
Nascido em Santo Amaro da Purificação em 3 de novembro de 1904, viveu parte da infância em São Bento das Lages, distrito de São Francisco do Conde, também no Recôncavo. Com a perda prematura da mãe, D. Maria Blandina Loureiro Silveira, foi residir em Feira de Santana, voltando posteriormente a morar em Santo Amaro, sob a guarda da avó, Dona Elíbia Macedo Loureiro e do tio Zequinha — o padre José Gomes Loureiro, além das tias Yayá e Zizinha.
O menino Zequinha, como era conhecido entre parentes e amigos, cresceu na histórica Santo Amaro entre as centenárias praças com coretos e filarmônicas e as belas igrejas onde freqüentava as missas. Concluído o primário, ingressou no Colégio Imaculada Conceição, um conceituado e exigente estabelecimento de ensino da cidade.
Em março de 1917 chega-lhe a notícia da morte do pai, a bordo do navio “Brasil”, que o trazia do norte para a Bahia.
Medicina
Com o avanço nos ensinos, o jovem Zequinha aproveitou as férias do colégio em Santo Amaro para ir a Salvador prestar exames para a conclusão do ginásio. Passou a residir, então, no Bângala 36, casa da tia Lili. Santo Amaro passou a ser, portanto, o local de férias.
Com as obrigações da faculdade e uma mudança radical no estilo de vida, o estudante José passou a viver em repúblicas e pensões. Inicialmente, morou no Pensionato Mariano Acadêmico, no Tingüí, e daí para uma série de pensões em diferentes bairros como Faísca e Areal de Baixo, entre outros.
Durante um tempo habitou também as famosas e alegres “repúblicas”, onde apesar de maior liberdade, cabia igualmente a responsabilidade dos próprios estudantes de administrar a moradia, exercitando desde então, os princípios de gestão, fraternidade e, fundamentalmente, da democracia.
Apesar de uma família composta por avós comerciantes, um pai engenheiro e um tio padre, a vocação para a medicina estava nos seus primeiros pensamentos, desde que freqüentava a farmácia de “seu” Leopoldo, ainda no interior. “Não sei de onde me veio esta inclinação pela medicina. Sempre soube que queria ser médico. Eu quase senti a medicina em mim”, explicou Silveira.
Ingressou na Faculdade de Medicina em 1922 aos 18 anos e saiu laureado cinco anos depois. A sua relação com a faculdade, seus professores e tudo que a medicina representava como forma de amor, respeito e orgulho, foram os alicerces de sua vida de dedicação ao próximo até os últimos dias de sua intensa vida.
Com apenas um ano de diplomado, o Doutor Silveira defendeu a sua tese “Radiologia do descendente”, sendo aprovado com distinção, resultando numa imediata contratação como assistente efetivo na Universidade.
A sua tese de doutorado não acabou como um mero documento guardado entre brochuras encadernadas ou numa gaveta de arquivo: ao contrário, cruzou fronteiras. A repercussão de suas idéias levou-o a fazer estudos complementares na Alemanha, onde se especializou nos mais modernos métodos de radiologia.
Entretanto, alertado por Prado Valadares sobre uma avassaladora epidemia de tuberculose que tomava a Bahia, o já então cientista transferiu-se para laboratórios na própria Alemanha e na Suíça, onde buscou a especialização em tisiologia, atividade da qual nunca mais se separou.
A partir de 1936, quando voltou para a Bahia, o Doutor Tisiologista José Silveira abraçou a causa da tuberculose e colocou todo seu conhecimento na busca da erradicação da doença, missão que jamais abandonou.
Após voltar da Europa, em 1936, como conferencista a convite do Instituto Ludolf Brauer, Professor Silveira teve a oportunidade de conhecer o titular, iniciando assim uma grande amizade. Através desse momento, nasceu a inspiração para criar o IBIT – Instituto Brasileiro para Investigação da Tuberculose, passo dado logo ao chegar a Salvador, a bordo do Zeppelin, o famoso balão navegador.
Com o início do projeto, nasceram imensos desafios, pondo à prova seus ideais e sua tenacidade. Sem contar com nenhum apoio, governamental ou privado, lançou a pedra fundamental da entidade. Contava, pelo menos, com os laboratórios instalados no subsolo da Faculdade de Medicina, onde processava as pesquisas.
Nos porões mal iluminados sem muita ventilação, através de um trabalho árduo de pesquisa, pouco prestigiado nacionalmente, nasceu finalmente em 21 de fevereiro de 1937, o IBIT, logo reconhecido internacionalmente graças às valiosas publicações científicas geradas nesse esforço.
Nova sede
Mas faltava uma sede própria, uma espaço autônomo que permitisse a continuidade e ampliação das pesquisas, além de áreas específicas para atendimento da clientela. “Sem pesquisa não há ciência; sem ciência não há estudo; sem estudo não há ensino, nem prática confiável”, afirmou na época Prof. Silveira.
Com muita luta, perseguindo seus objetivos dia e noite, o cientista conseguiu, finalmente, um terreno junto ao cemitério do Campo Santo, onde foi edificado o tão sonhado espaço.
À esta altura, o Dr. José Silveira passou a contar com o apoio do empresário Carlos Costa Pinto, que assumiu dois terços do custo do projeto, ficando o restante com o Governo do Estado.
Referência
Em 1944, a Bahia passou a se orgulhar de possuir uma unidade modelar de investigação da tuberculose, uma das melhores da América do Sul. Como célula mater, o IBIT foi responsável por toda uma mudança de processos metodológicos, implantação de novas tecnologias e até comportamentos sociológicos.
É importante lembrar que, como a maioria das doenças infecciosas, o portador da enfermidade era invariavelmente discriminado, afastado totalmente de quaisquer atividades sociais.
Através de toda essa dinâmica, surgiu o Hospital do Tórax, voltado para assistir às doenças torácicas e suas extensões.
Contudo, tamanho esforço diante de tantas necessidades acabou por resultar em consideráveis dificuldades financeiras, principalmente quando se tratando de um país em desenvolvimento como o Brasil, onde o âmbito da saúde não é prioridade governamental e o apoio de entidades privadas não apresenta nenhuma garantia.
Novas conquistas
Ainda assim, por volta de 1988, sensíveis representantes do empresariado baiano juntaram forças para dar apoio à iniciativa, nascendo então a Fundação José Silveira.
O Hospital do Tórax converteu-se no Hospital Santo Amaro, atuando em diversas áreas médicas e propiciando assim os recursos necessários para subsidiar as obras assistenciais do IBIT.
Desde o seu nascimento, como princípio filosófico, o IBIT sempre teve como meta atender à população carente, uma marca registrada do seu fundador, um cientista de grande conteúdo humanitário e que tem como seguidora sua esposa e companheira, Dona Ivonne Silveira.
Quando o IBIT iniciou suas atividades em sede própria, em 1937, o Dr. José Silveira era noivo. Como os caminhos do destino não mandam aviso, nesse mesmo ano, atendendo normalmente seus pacientes, foi surpreendido pela entrada da belíssima Ivonne Damulakis em seu consultório, que apresentava diversos sintomas ainda não identificados, mas logo constatados pelo cientista como de fundo emocional, sob a forma de uma imensa tristeza que a abatia.
Casada desde os 13 anos com um homem bem mais velho, como era comum na época, a relação não suscitou nenhuma paixão, nem filhos, situação que a conduzia a um crescente processo depressivo. Aquele encontro ficou marcado para sempre na vida dos dois, contrariando todos aqueles que não acreditam em amor à primeira vista.
Os encontros freqüentes em função do tratamento acabaram por resultar numa grande paixão, fazendo com que, mais tarde, Dona Ivonne pedisse a separação ao marido. Foi um processo lento e doloroso, culminando numa ruptura judicial onde ela abria mão de todos os direitos que possuía por lei.
Sustentada pela força do amor que agora conhecia, Dona Ivonne ressurgiu das cinzas em que vivia, fazendo brilhar com alegria a sua exuberância, transformando-se numa nova mulher. Inconformado, o ex-marido mudou-se para o sul do país.
Nova vida
Algum tempo depois, o Dr. Silveira atendeu em seu consultório um paciente especial, vindo do sul, buscando um diagnóstico do melhor especialista em pulmão na época.
Era o próprio Antônio Damulakis, ex-marido de Dona Ivonne, que apresentava um câncer no pulmão em estágio avançado, com poucas perspectivas de sobrevivência.
Ainda assim, foi encaminhado através de Dr. Silveira para um famoso cirurgião pulmonar no Rio de Janeiro, seu amigo pessoal, para acompanhamento e tratamento específico. Mesmo bem acompanhado, pouco depois Damulakis faleceu.
Como na época ainda não existia o divórcio e o desquite não permitia um novo casamento, apenas na condição de viúva poderia ser realizado o matrimônio. Passado algum tempo, numa cerimônia simples, para poucos amigos, José Silveira e Ivonne oficializaram finalmente o grande amor que viviam.
Também não tiveram filhos, vivendo um para o outro, mas gerando um grande fruto da união: o IBIT.
Uma das principais características do Doutor Silveira era a sua vivaz inteligência, com uma percepção espantosa, traços que se revelaram desde a infância.
Sua carreira foi rápida e notável: era sempre aprovado em quantos exames prestasse, alcançando, após a faculdade, inúmeros títulos como o doutoramento, a livre docência e a cátedra.
Ajudava-o, nessa ascensão, o seu apurado senso organizacional, o estrito respeito aos compromissos e uma extrema dedicação às causas em que se empenhava. Seu dinamismo levou-o a se envolver com atividades além da medicina, como a “Sociedade Amigos da Cidade”, com ações voltadas para o benefício da cidade e dos seus cidadãos.
Como sempre gostou de escrever, iniciou por cartas primorosas na infância e juventude, passando pelos trabalhos de faculdade, defesas de teses e diversos trabalhos de cunho científico através de pesquisas, muitos deles destinados às conferências que proferia mundo afora até alcançar a literatura pura, distante dos meandros da medicina e da ciência.
Aos 70 anos, em pleno vigor intelectual, publicou "Vela acesa", "À sombra de uma sigla", "O neto de Dona Sinhá" e outros, obras que lhe valeram o ingresso na Academia de Letras da Bahia.
Mas um grande golpe tirou-lhe a vitalidade e o gosto pela vida: em maio de 2000, Dona Ivonne falece, fazendo-o, a partir daí, perder o interesse pelas coisas, agravando-se com uma sensível, mas crescente perda de lucidez, afastando-o do gradativamente do convívio com o IBIT.
Aos 95 anos, em abril de 2001, em sua residência no Corredor da Vitória, sem nenhuma aparência de dor ou sofrimento, com um expressivo “boa noite” despediu-se dos que o cercavam e saiu de uma vida intensa e repleta de méritos e entrou para a história, deixando seu nome e sua obra para a imortalidade.